XADALU TUPÃ JEKUPÉ

Xadalu Tupã Jekupé é um instrumento de Nhanderu Tupã que leva a informação em forma de arte a serviço da comunidade Mbya, seus trabalhos são frutos de conversas em rodas em volta da fogueira com Karai (sábios) de diversas comunidades, levando as visões e inquietações das aldeias para a cidade em forma de arte urbana, mostrando os contrastes sociais entre entre a cultura indígena e a cultura ocidental, 

 

Tupã Jekupé também tem o trabalho que transita entre museus e galerias, buscando o máximo da valorização da cultura Guarani Mbya, onde o valor dos trabalhos e dividido com a aldeia. Suas imersões dentros das aldeias buscam a produção das artes visuais dentro da comunidade entre jovens e velhos. Suas oficinas de serigrafia são agraciadas pela comunidade Mbya se tornando umas de sustento com a venda de camisas e postais. 

A medida que a cidade cresce geograficamente, a aldeia diminui e automaticamente os sonhos sofrem interferências na transição para outro mundo. “Sendo o único lugar seguro, as cidades celestiais são o local de onde viemos e para onde vamos depois de nossa passagem aqui na terra. Mas a Tekoa continua protegida de alguma maneira por nhanderu, o motivo de nossa resistência há mais de 500 anos. O trovão de tupã lá fora mostra sua força de anunciar o tempo passado que o raio cruzou e já não existe mais, e o sol mostra seus raios e nos permite caminhar sobre eles” diz Tupã Jekupe. 

INVASÃO COLONIAL "IVY OPATA" – A TERRA VAI ACABAR
Texto de Cacique Geral Mburuvixá Tenondé Cirilo Kara 

Porto Alegre…


Hoje em dia os indígenas estão sentados nas calçadas a beira das ruas, são totalmente invisíveis, parecem não ser índios, mas são indígenas que estão ali sim, vendendo seu artesanato, mostrando sua música, cantando. Por aqui e ali, sentados, este é o lugar deles também, porque Porto Alegre foi uma grande aldeia indígena, e onde estão sentados era território de uma árvore frutífera que se chamava “Aguay”, por isso o nome do Rio Guaíba.


Então os guaranis sempre vinham, de tempos em tempos, nesta que atualmente é a região do centro de Porto Alegre, colher Aguay, uma fruta tão sagrada que não se podia colher do pé. Assim os guaranis procuravam essa fruta, sentavam e juntavam para leva-la para casa. Numa outra época eles voltaram nova- mente, mas quando chegaram neste local para colher a fruta, já tinham sido cortados alguns pés, e ali os guaranis sentaram e pensaram no que estava acontecendo... Até que voltaram num outro momento e já não tinham mais árvores desta fruta, haviam sido todas cortadas, mesmo assim os guaranis sentaram neste lugar novamente e continuaram pensando neste acontecimento, ficando cada vez mais tristes. Até que chegou o momento em que vieram novamente buscar tal alimento e encontraram uma casa construída no local. Diante disso, os guaranis sentaram e pensaram em como e onde conseguiriam seu fruto sagrado... Sucessivamente voltaram, viram o surgi- mento de mais casas, sentaram ali e com imensa tristeza rezaram, porém logo voltariam e notariam que já estavam no centro de uma cidade. Mesmo assim, todas as pessoas ainda se perguntam por que o índio está sentado ali.

 

Não é porque estamos mendigando, é porque os brancos invadiram o nosso território, um lugar sagrado para os guaranis. Hoje, quando nos veem ali naquela situação, marginalizados, parecem achar que estamos perdidos, mas posso dizer que não, nós estamos ali procurando aquelas arvores sagradas do fruto.

 

Aguay, que espiritualmente sonhamos que possam romper as calçadas para brotarem novamente.

Dizem que o indígena tem que estar no mato, mas aqui era a mata e os brancos cortaram e construíram a cidade, construíram prédios em cima do território da nossa aldeia. Antigamente sonhávamos com um lugar que “Nhanderu” (Deus) nos relevasse para a criação de uma nova aldeia, no presente isso se torna impossível, pois não temos direito a propriedade. 

 

Antigamente, através da reza, nosso corpo conseguia se encontrar com o nosso espírito e, a partir dali, conseguíamos ver a morada celestial ou a terra dos Deuses... Na época atual não se consegue mais isso, pois nosso corpo está contaminado com a comida do branco, sendo que o corpo não está em harmonia com o espírito, fazendo que os dois fiquem deslocados. Esse alimento não é fruto da terra, mas sim da indústria que nos enfraquece e vicia aos poucos. Por isso, nos dias de hoje, é quase impossível se chegar às moradas dos Deuses. 

A invasão da tecnologia é muito forte, afetando jovens e ao mesmo tempo as nossas crianças, pois estão começando a jogar, a usar a tecnologia do celular e do computador. Primeiro iniciou com o rádio, escutando a música e começamos a cantar e dançar como os brancos; depois veio a televisão, que todos olhavam, e com ela toda essa agressividade da cultura não indígena que, de uma maneira oculta, acabou entrando e agredindo a cultura guarani, fazendo que nos esqueçamos dos nossos costumes, do cotidiano guarani, de plantar, de roçar, de cantar, de dançar, esquecendo-se de como se faz uma casa de barro, esquecendo-se de como aconselhar nossos filhos, esquecendo-se de tudo... 

 

Essa preocupação como liderança guarani eu tenho hoje e penso, será que tudo isso tem volta ou não? Antes tínhamos todos os anos o “Nhemongarai” (ritual do milho), e todo mundo tinha plantação, todos faziam um mutirão para plantar o milho, a mandioca, o amendoim, a batata doce, mas agora e cada vez mais, parecem se juntar apenas para jogar vídeo game, isso rouba os pensamentos dos indígenas, deixando de pensar na vida, enfraquecendo o espírito dos guaranis, trocando o pensamento positivo pelo negativo. Nossa cultura tem três camadas de espíritos, uma já se foi... Agora temos duas, mas quando chegarmos ao ponto de termos uma só estaremos completamente perdidos, não conseguindo mais viver. Portanto, quando falamos sobre nossa cultura, se nos esquecermos de nossos rituais, o povo guarani deixará de existir, vai existir só o corpo, sem alma e sabedoria. 

 

Assim, a tecnologia para nós foi uma arma criada para matar mesmo, modificar toda uma cultura. Isso não é como antes que era com a arma de fogo, agora se mata com essas tecnologias sem sentir dor, parecendo ter alegria e prazer, pois ao jogar se juntam e ficam alegres, mas no final é tudo engano, estamos nos matando por si mesmos e essa é a arma mais perigosa. Um exemplo disso é que no horário que o sol se põe, ao invés de virem para casa de reza, os nossos jovens se encontram para jogar vídeo game. 

 

Xadalu é guarani, pois ele sente e vive no mundo guarani e tem seu espírito guarani. Não é por acaso que isso aconteceu, ele é um ser especial, foi nosso Deus Nhanderu que mandou ele, pois existem guerreiros enviados pelos deuses para salvar o seu povo, e o nosso Deus mandou Xadalu para salvar a história do Povo Guarani Mbya, através da arte. 

 

Um museu deve contar a história do seu povo, deve ser a casa da nossa cultura. Aqui no Rio Grande do Sul nunca deram atenção e valor para a cultura indígena, mas agora há uma oportunidade de se repensar isso. Nunca teve texto de indígenas nas exposições aqui no Sul, é sempre o branco que escreve. 

 

Nossa entrada neste Museu será de corpo e espírito, mas depois sairemos de corpo, mas o espírito vai ficar aqui dentro, e nosso marco histórico será lembrado por várias gerações de nosso povo. 

XADALU – DIAGRAMAS DE ALTERIDADE E TROCAS
Texto de Paulo Herkenhoff

A situação das sociedades originais das Américas é a evidência fragorosa do fracasso do processo colonial. Em quinhentos anos de invasão, os povos autóctones conheceram a rapsódia invertida de um épico perverso onde ocorreram genocídios, escravização, guerras simbólicas, proselitismo de religiões cristãs, doenças novas, fome, extinção e dizimação, imperialismo linguístico, degradação cultural, diásporas, destruição do ambiente, usurpação de terras e outras riquezas, roubo de saberes, sob muita violência difusa. “Como essa história do contato entre os brancos e os povos antigos daqui desta parte do planeta tem se dado?”, indaga Ailton Krenak em seu blog. A arte de Xadalu não vai mudar o mundo, mas pode alterar nosso olhar sobre as coisas.*1 Ao abraçar a causa dos guaranis, ele conforma um ethos para sua arte de agenciamento social. 

 

Seu nome é Dione Martins. Xadalu vem de Shadaloo, do jogo Street Fighter. Na infância, ele e um amigo imaginaram criar a empresa Xadalu. Nas primeiras intervenções nas ruas, ele colocou o nome Xadalu no indiozinho que colava pelas paredes – e passou a ser chamado de Xadalu, por ser um street fighter, um guerreiro das ruas como gari e artista. 

 

Embora seja trineto de guaranis por conta de Adalva, sua trisavó materna, Xadalu não reivindica a identidade guarani. Por puro pudor, alega não falar guarani e considera a língua um fator constitutivo da identidade cultural. No Amapá, Pituku Waiãpi fazia perguntas na língua waiãpi como parte do processo de pintar seus quadros – “aí eles me respondem em waiãpi, onde é para pintar, o que falta”.*2 Xadalu se tem por mestiço, pois sua mãe Maria Catarina Martins da Luz é negra; daí não ousar falar em nome dos guaranis, mas, através de sua arte, reivindicar a visibilidade da etnia. Após entender sua própria identidade, formou a identificação irmanada com os guaranis. Diz ele: “Minha vó Dalva [Dalva Oliveira da Luz] era um fragmento indígena que ainda resistia vivendo na beira do rio, morava numa casa de barro e capim, vivia da pesca.”*4 A fala de Xadalu é moldada pela linhagem feminina. “Elas me mostraram o quanto as fortalezas podem ser vulneráveis e ao mesmo tempo inquebrantáveis, pois tudo vai depender da circunstância e do ponto de vista em que a vida nos coloca”, afirma. Xadalu compôs o êxodo rural e superou a condição de lúmpen, mas não é um artista do miserabilismo. A partir da vivência, ele proclama o “matriarcado de Pindorama”, que Oswald de Andrade consagrou no Manifesto Antropófago (1928). Em Alegrete, onde nasceu em 1985, nunca havia pensado nos guaranis, “já que não existe aldeia ao redor de Alegrete, foram todas exterminadas, mas sabemos que depois da guerra guaranítica houve refugiados guaranis que foram morar na beira do rio Ibirapuitã”. 

Em 1996, dona Maria e dona Dalva, mãe e avó de Xadalu, tomaram uma decisão. “Viemos tentar uma nova vida em Porto Alegre e, por falta de emprego e péssimas condições financeiras, fomos parar numa periferia, a Vila do Funil”, informa o artista. Até 1999, ele e sua mãe juntavam latinhas para sobrevivência. Depois, foi gari. Em 2003, criou uma oficina de serigrafia na Vila do Funil. A mãe e a avó sempre estimularam Dione a estudar, malgrado a vida precária. Lembrando-se da Serigrafia Gaúcha, seu primeiro emprego, diz que “nem imaginava o que viria, só sabia que lá eles pagavam almoço e passagem”. 

Numa virada de ano, o street fighter Xadalu colou quase 10 mil adesivos pela cidade. É um caso raro de um artista mestiço que retoma questões estratégicas de sua integração numa metrópole. Rege-se por uma intencionalidade precisa: tornar os guaranis visíveis. “Em pouco tempo já estava íntimo das ruas e mal sabia que nunca mais iria conseguir viver sem elas. Essa mistura de periferia com asfalto (ruas) tornou empírico meu DNA marginal. Tanto a periferia quanto a rua, sinto elas como a extensão do meu corpo, fazem parte de mim.” Hoje Xadalu tem um círculo de amigos pichadores como Toniolo, o mais antigo pichador do Brasil, e colabora com Smok e Dick da grife Maiorais. 

 

Xadalu trata de deslocamentos territoriais, de sua saída do interior para a capital até o reconhecimento da diáspora dos guaranis. Sua metáfora, os primeiros trabalhos na rua como catador de latinhas e gari, num percurso dos desterrados. Xadalu produz uma obra que, quanto mais dispersada, mais eficiente é sua comunicação. Ele conheceu o extremo da margem – “as vassouradas nas ruas de Porto Alegre, no primeiro emprego como gari, me mostraram um mundo de preconceito, desigual e desleal, mas tudo isso foi bom para fortalecer meu aprendizado”. A utopia tem a substância do humanismo no projeto de Xadalu. O humanismo, por sua inatualidade, possibilita-lhe convocar o conceito em face da radicalidade de situações brutais do “inumano no humano”, nos termos da análise de Emmanuel Levinas de Humanisme de l’autre homme. 

No oposto do guarani italianizado de Il Guarany de Carlos Gomes, Xadalu age por contaminações culturais do homem nativo concreto, numa interculturalidade atravessada por trocas e resistência à violência. Ele sabe que a diáspora guarani foi e é imensa. “O Ibirapuitã, rio que banhava minha cidade”, conta Xadalu, “desemboca no Ibicuí, que desemboca no rio Uruguai (rio onde teve muitos conflitos de guerras e extermínios indígenas; até hoje causa incômodo aos guaranis, pois é uma fronteira onde eles têm que pedir para passar para ver seus parentes que moram na Argentina)”. 

“Disseram que meu bicho pode ser o jaguaretê (onça)”, diz Xadalu. Toda onça é, portanto, um autorretrato. Seus guaches exploram temperaturas quentes sob a harmonização estridente das cores, como acontece com pinturas de alguns artistas amazônicos, como os ashaninkas e os huni kuin na região do Acre, e Carmézia Emiliano entre os macuxis em Roraima. Os bichos de Xadalu têm um desenho sinuoso, próximo de certa cultura gráfica pop articulada aos animais na madeira dos guaranis. Tudo nele remete a uma visão periférica da cultura visual – a rua, o subúrbio, as aldeias guaranis. 

Os brancos são muito violentos, são muito malvados.
Quase toda a minha família foi assassinada lá, só eu sobrei.
Os brancos são muito bravos, por isso tenho medo deles até hoje.
Já estou velho e não enxergo mais, e sem enxergar fica difícil correr.
Despejaram muita gente da aldeia, mataram metade lá mesmo.

Nos expulsaram e nos abandonaram.
Todas as nossas casas foram queimadas, tudo virou cinza.
Bateram nas mulheres, nas crianças e nos homens.
Queriam nos queimar junto com as casas.
Aí eu saí e falei para eles: Não nos queimem!
Eu perguntei quem era o chefe, um deles me mostrou, então pedi:
Não nos queimem, por favor! Deixem nossa casa como está!
Na hora deixaram, mas depois passaram o trator por cima. Derrubaram tudo.
As sepulturas ficam ali, meu avô está enterrado mais para lá. Eu conheço todos os lugares, não tem um lugar que eu não

conheça, sou antigo aqui.*3 

A situação dos territórios guaranis demarcados gera penúria por sua diminutez e dificuldades de sobrevivência digna. A presença de guaranis nos espaços públicos de Porto Alegre é alvo de hostilidades de alguns comerciantes, que acham que “os índios estragam o ambiente”. Xadalu produziu um cartaz por volta de 2015 com a inscrição ÁREA INDÍGENA, em verde e amarelo. Houve uma enorme reação. Os guaranis se regozijaram e entenderam que era um espaço para seu artesanato; os comerciantes sentiram-se ameaçados. Um cacique pediu a Xadalu que espalhasse pelo centro. Numa noite, Xadalu colou mil deles! ÁREA INDÍGENA é um dispositivo antidesterritorialização. “No dia em que não houver lugar para o índio no mundo, não haverá para ninguém”, diz Ailton Krenak. Xadalu reivindica o reconhecimento das terras guaranis, a reterritorialização das aldeias e o reconhecimento simbólico da Tekoha.*5

 

Para entender Xadalu, examine-se a etimologia do termo solidariedade – do latim solidus, inteiro, consistente. Nele, solidariedade é a responsabilidade recíproca num meio social, de pessoas que criam relações de trocas simbólicas e sob vínculos estéticos e éticos, remuneradas de modo justo. Não é salário, mas colaboração. A esta arte, chamo de diagramas de alteridade. 

 

A arte, para além das paredes, molduras e pedestais, é atividade que cura, escuta e dá voz, provê e torna visível a quem vive sob estado de subalternidade. No oposto, está o artista extrator da mais-valia simbólica da cultura da adversidade, explorador das condições subalternas do Outro nos moldes de funcionamento do capitalismo. Em geral, esse Outro social é o excluído na rígida sociedade de classes do Brasil da imobilidade, cujo antídoto não é a ascensão pelo consumo, mas tem que ser a emancipação sociopolítica. Alguns diagramas de alteridade são: 

 

Cura e equilíbrio estavam na arte-terapia de Nise da Silveira e Osório César. Lygia Clark dissolveu a arte num modelo terapêutico como a “estruturação do self” no espaço pré-verbal. 

 

Escuta. Alguns artistas abrem espaços de escuta para segmentos da sociedade: Dias & Riedweg com menores de rua, Walda Marques com vendedoras de cheiro do Pará, Rosana Palazyan (No lugar do Outro), Rivane Neuenschwander e Xadalu. O vídeo Ymá Nhandehetama (Antigamente fomos muitos), de Armando Queiroz, é um colóquio sobre a situação das populações autóctones hoje com Almires Martins Guarani, que defendeu uma tese no Pará sobre direito indígena guarani. 

 

Dar voz. Estratégia do Vídeo nas aldeias, do antropólogo Vincent Carelli, que propicia meios tecnológicos para a ação simbólica aos indivíduos.

O artista provedor não suga a mais-valia simbólica e material da experiência de vida do Outro, mas oferece produção de renda: Geraldo de Barros, Celeida Tostes, Alexandre Sequeira, Bené Fonteles, Eduardo Frota e Igor Vidor. 

Tornar visível. Hélio Oiticica, Lygia Pape, Cildo Meireles, Sebastião Salgado e Paulo Nazareth trazem à luz dramas da existência. Xadalu produziu retratos de cinco crianças, mulheres e homens guaranis que portam uma pequena escultura do animal com que se identificam: esses Seres invisíveis são retratos-emblemas de subjetividades, como a de Gustavo Ortega, que porta uma coruja, que ombreiam com a série Marcados para viver, de Claudia Andujar, dos ianomâmis. Porque os trabalhadores guaranis passam por impercebíveis nas ruas de Porto Alegre, Xadalu imprime seus retratos sobre chapas de raio X, em forma de negatoscópio. 

 

Advogar pela causa das sociedades autóctones. Nos anos 1960, expande-se a consciência do genocídio dos povos da floresta praticado impunemente pela expansão territorial do capitalismo sobre seus territórios durante a ditadura de 1964. As grandes forças de denúncia foram os antropólogos e indianistas, as universidades, a imprensa (fotojornalistas, como Claudia Andujar junto aos ianomâmis), a Igreja Católica e os artistas (Cildo Meireles e Claudia Andujar). 

 

Contra a mais-valia simbólica. Um processo de agenciamento do capital simbólico coletivo. Paula Trope (Meninos do Morrinho) é exemplo da solução equânime para o problema da mais-valia simbólica. 

Muitos artistas contemporâneos não extraem a mais-valia simbólica e material do discurso calcado na experiência de vida do Outro. Ao contrário, incorporam a colaboração autoral, praticam a escuta social e proveem algum retorno ou remuneração. Xadalu substituiu a alienação pela constituição do Outro em sujeito moral e econômico, individual ou coletivamente. Entre os diagramas de alteridade de Xadalu, estão: 

 

Cursos profissionalizantes. Ensino de serigrafia nas aldeias Tekoá Koenju, Tekoá Pindó Mirim e Tamanduá para jovens usarem a figura do indiozinho Xadalu na edição de camisetas para venda. 

 

Banheiro. Não havia banheiro em Pindó Poty, a aldeia mais pobre de Porto Alegre. Em diálogo com o cacique, Xadalu constrói um. 

 

Reflorestamento. Preza, marca de armações de óculos, criou um modelo com seu indiozinho. Xadalu usou seus honorários em Pindó Poty. Como lá não há artesanato porque a mata foi devastada, ele propôs o plantio de kurupi para produzir madeira para os artesãos no futuro (cerca de trezentas mudas). “O alinhamento com as aldeias do Rio Grande do Sul foi inevitável”, revela um Xadalu luminoso,“me sinto como o jabuti, o mensageiro que leva e traz a informação.” 

Xadalu não fica à espera por mudanças na sociedade, mas busca agenciar sua potência para agir na escala individual – não se move por impotência; reconhece a pequena medida de suas possibilidades, sem submergir na onipotência. Seus riscos e dúvidas movem sua pulsão de vida no contexto de um contrato social solidário da arte. 

1 A obra de Xadalu me reconduz ao filósofo Richard Rorty. 

2 Ver Arte Pará 2005, Fundação Romulo Maiorana. 

3 Fragmento extraído do filme Martírio, Vídeo nas Aldeias, Vincent Carelli, codireção de Tita e Ernesto de Carvalho, 2016. 

4 Todas as citações de Xadalu saíram de e-mails ao autor em abril de 2018. 

5 Tekoha é a terra tradicional dos guaranis.