CONTEÚDO
EXTRA
V.03,Nº1/2022
GALERIA
ANGELA SPIAZZI

ANGELA POR ANGELA

Angela é bailarina, atriz e performer

Continuo sendo.

Sobre isso que quero falar.

 

Me chamo Angela Spiazzi sou bailarina e intérprete e tenho 57 anos. Esse ano de 2022, completo 40 anos de profissão. Eu não tenho vergonha nem sinto receio em falar a minha idade, eu só me assusto. Não tenho a sensação de que 40 anos se passaram. Na minha cabeça, está tudo igual, como há 20 anos. Claro que percebo as linhas no meu rosto, algumas diferenças no meu corpo, mas a aptidão para seguir é cada vez mais voraz. Sigo treinando meu corpo, de 5 a 7 vezes por semana, isso independe de clima e de época do ano. Com igual ou maior intensidade de antes. Certo! Algumas coisas não faço mais, algumas limitações, mas nada que me impeça de seguir. 

 

Eu não consigo admitir que alguém acredite que a minha capacidade é menor em detrimento da minha idade sem sequer me dar uma chance, testar ou experimentar. Mas infelizmente... acontece.

 

Na maioria das vezes, quando falamos sobre o tempo, olhamos para nossa caminhada no passado e para o que ainda desejamos fazer futuro. 

 

Nas diferentes fases da nossa vida, essa relação varia, o que parece lógico. Quanto mais jovens, aparece o mínimo no passado, enquanto pra frente surge um universo de possibilidades. Na maturidade, olhamos para trás e um universo de realizações aparece e, então, olhamos para frente... e ainda enxergamos esse universo de possibilidades. Mas isso não é visto por todos.

 

Esse etarismo é praticado livremente há tanto tempo que nem percebemos que se trata de mais um preconceito arreigado na sociedade.

E quando chega nossa hora, a sensação é avassaladora. 

Tudo começou lá atrás, eu com 19 anos, e as pessoas me dizendo:

Aproveita porque a profissão de bailarina tem vida curta. 

 

Não concordava com essa “sentença” que as vezes mais parecia uma ameaça, uma maldição. Isso me incomodava muito. Não pensava muito sobre isso, mas me assombrava ter uma espécie de data de validade. 

 

Até que …

 

Em um festival Internacional de Artes Cênicas, produzido e realizado aqui em Porto Alegre, fui assistir a Nederlands Dans Theater Company. Na época eles possuíam 3 “corpos de baile distintos”. E o que veio a Porto Alegre, era justamente a de bailarinos mais maduros, com idade acima dos 50 anos. A Coreografia escolhida era um solo realizado em um palco grande, cujo cenário era um pêndulo gigante ao fundo. Tudo enorme, e ao centro, ele, um único e solitário ser. 

 

O tempo, a imensidão, a velocidade, a idade cronológica… teoricamente, tudo contra. E foi ali que a “magia” aconteceu:

 

o bailarino voava pelo palco, se agigantou, pleno, magnífico, transformando tudo aquilo em nada. Era impressionante! A virtuose daquele homem fez com que o tempo parasse. Lembro como se fosse hoje. Aquele bailarino definitivamente mudou a minha vida. 

Nada está definido.

 

Hum!! Sei, são muitas variáveis. Será mesmo?

 

Hoje vejo esse etarismo como uma limitação que o outro tem em aceitar, em acreditar, no que posso.  

 

É sobre isso que precisamos falar. 

ANGELA POR ÁLVARO ROSACOSTA

Álvaro é compositor, cantor, multi-instrumentista, produtor, ator, diretor teatral e professor

A Angela não avisou ninguém que estava se sentindo mal. Fez o espetáculo, como de costume, com uma intensidade absurda. Não bastasse o fato de parte do elenco estar gripado, ainda tivemos que adaptar um espetáculo de 1h e 45min para uma apresentação de 40 minutos. 

 

Ainda guardo aquela imagem, o momento em que cortei o Látex e ela conseguiu respirar brevemente e logo foi levada para ser atendida. Era a vida numa fragilidade e resistência tremenda.

O último espetáculo de dança em que estivemos juntos foi “A família do bebê”. Uma cama elástica de 3 metros de altura e canos de PVC. Nos ensaios a Angela manuseava uns canos enormes com uma leveza e precisão costumeiras. Quando entrei na cena e tive que fazer o mesmo movimento… Fiquei espantado com o peso daquilo. Não era possível que eu, com os meus 1,72 e quase 90Kg, sofresse tanto para erguer aqueles “caninhos”. Técnica. Repetição. Persistência. Teimosia. Calma. Calma… Observação.

Assim eu começava a entender como aquela bailarina adquiria tanta força em cena.

Anos depois nos reencontramos em cena. Desta vez seu corpo já tinha a presença mais evidente de sua voz.

As questões que a Angela levanta neste “novo” projeto, tem muito a ver com as expectativas que criamos no início de um processo criativo: quanto tempo ainda temos? Quais são os nossos limites físicos e éticos? Como podemos aprender e contribuir com o trabalho do outro? Ainda conseguimos nos comunicar com o nosso tempo?

Espero que sim.

Foi em 1993 que eu comecei a descobrir outras possibilidades, outras artes e artistas como,  Angela Spiazzi.

Fiquei impressionado com o rigor e disciplina que aquelas artistas demonstravam, especialmente, “Angelita” (às vezes a chamo assim) uma bailarina “muito alta”… na verdade, descobri anos depois, que ela tinha apenas 1,68 de altura, mas em cena parecia ter muito mais e mais.

Em “Lautrec… fin de siècle” tive a oportunidade de experimentar um longo processo criativo ao lado da Angela. Era impressionante como ela conseguia se apropriar de cada objeto e fazê-lo se incorporar ao seu gestual. Em cena ela usava duas baguetes que se transformavam na própria extensão de seus braços, tronco…tudo. Sem uma palavra sua expressão dizia o que era preciso ser dito, sempre. Horas e horas manuseando qualquer objeto até dar-lhe vida. Essa é a Angela, para mim. Não conversávamos muito, mas era evidente que ela confiava em mim. Sempre amorosa e de uma generosidade emocionante.

A proposta deste projeto, que Angela está desenvolvendo atualmente, resgata uma dúvida que eu sempre mantive por perto: Se o teatro permite a atuação de qualquer pessoa em qualquer idade, por que na dança isso não é tão comum? Pelo menos não a dança que vemos nos palcos tradicionais.

Voltando um pouco no tempo, lembro da vez em que tivemos que rasgar, literalmente, o figurino de Látex para que a Angela pudesse respirar ao final do espetáculo. Era uma apresentação no Teatro Carlos Gomes/RJ, pelo Globo Dance. Parte do elenco havia contraído uma infecção respiratória grave no trajeto de Santos ao Rio de Janeiro.

ANGELA POR DÉCIO ANTUNES

Décio é diretor teatral, dramaturgo e roteirista.

“No começo era o movimento.” 

 

Assim José Gil inicia o Prólogo do seu livro “Movimento Total – O Corpo e a Dança”. Um contraponto evidente com “No início era o Verbo”, do Evangelho de João, e que Gil revisita para desenvolver seu tema. 

 

Eu acrescentaria ainda que é no corpo que ocorre toda a escrita da existência humana, do nascimento à morte. Por sua vez, nas dimensões individual e coletiva, a passagem do tempo sempre se dá no corpo e faz-se História e Memória. 

 

No campo da Arte, e em especial naquelas artes do movimento, será o corpo que irá esculpir o real e transfigurá-lo em movimento – caso da dança – e no teatro significativo que Drama em grego queira dizer Ação. Para que isso ocorra, são essenciais intérpretes que consigam imergir nas obras, apreendendo seus diferentes meandros para lhes dar visibilidade, concorrendo para tal força, beleza (não apenas em seu sentido usual estético) e técnica associada à inventividade – ou seja, não basta a primeira, que pode apenas significar fazer bem algo, o que é nada ou muito pouco quando se fala em Arte. 

 

Com a passagem do tempo, noções como força, destreza, beleza, velocidade rítmica, se atenuam e exigem dos intérpretes consciência do corpo e permanente abertura para a reinvenção do seu processo criativo.  

 

Esta breve introdução me ocorre ao lembrar de três tempos, três encenações, em que tive a presença da Ângela Spiazzi no elenco, ela bailarina desde sempre e consagrada em sua longa trajetória. 

 

A primeira delas, em 2001, com a encenação de “Novena à Senhora da Graça”, poema sacro-profano do poeta Theodemiro Tostes, musicado por Luiz Cosme. Nela, optei por transcrever como momento em que o poeta escreve o poema. Em cena surgem fantasmagorias, quando o poeta é fustigado por imagens e sonoridades, entre as quais sua idealização da personagem título do poema - inicialmente vaga, encobertas por véus, interpretadas por quatro intérpretes bailarinas. Na culminância do poema, surge a “Senhora da Graça”, sem véus, na plenitude do corpo, revelando-se assim a conotação erótica subjacente na obra. A personagem enfim revelada ao poeta era interpretada por Ângela. 

Em 2005 se dá novo encontro – quando da encenação de “Mulheres Insones”, uma incursão pelo universo das obras de Nelson Rodrigues, com ênfase em suas personagens femininas. Na dramaturgia, a personagem “Dorotéia” era o núcleo dramático central, visitada por outras das suas peças míticas e psicológicas. Coube à Ângela interpretar nossa versão de Dorotéia.

 

Se na primeira obra eram exigidas força e destreza física em partituras sobre algumas estruturas cenográficas íngremes, mas ainda com alguma leveza das figuras femininas, “Mulheres Insones”, ao contrário, mergulhava a personagem central em composições expressionistas, movimentos intensos pelos vários quadrantes do espaço cênico, no nível do solo e aéreo, enquanto vivia pulsões da personagem, que revelavam sua oscilação entre desejo e culpa, prazer e punição. E Ângela percorreu essa exigência e a complexa rede psicológica da personagem com imensa potência e sensibilidade. 

Por fim, passou-se quase uma década para um novo encontro. Foi em 2014, com “Um Dia Assassinaram Minha Memória”, encenado no espaço de uma casa-museu de Porto Alegre.  Nela, mulheres abrigadas no espaço a partir de um indeterminado conflito histórico, recebem o público e compartilham com ele suas memórias e reflexões.

 

Se em “Novena à Senhora da Graça” e “Mulheres Insones” a bailarina Ângela Spiazzi trouxe a elucidação de suas personagens através do corpo e movimento, sem a utilização da palavra, nesta última obra associou-se sua voz para a composição. E o que presenciei, nas diferentes personagens que interpretou, foi a busca de descobertas das múltiplas vozes associadas às partituras inventivas de movimentos. 

 

Em suma, três encontros e a troca com uma intérprete que se reinventa no tempo da criação, associando ousadia e mergulhando naquilo que o mesmo José Gil aponta em seu livro: “Por meio de movimento domará o movimento: com um gesto libertará a velocidade que arrebatará o seu corpo traçando uma forma de espaço. Uma forma de espaço-corpo efêmero, por cima do abismo.”

Concluindo nessa breve reflexão gerada pela minha parceria com Ângela Spiazzi: saudemos os intérpretes que se arriscam e se reinventam, que compreendem que no todo há o movimento, que as palavras surgem do corpo e se fazem movimento.